Uma Carta
palavras que eu queria te dizer em Recife
Sabe quando a gente não sabe como começar uma mensagem? Pois é, eu não tô sabendo. Eu reescrevi umas mil vezes este começo. Primeiro, perguntando como você está e, na última tentativa, um oi sem graça.
Mas, velho, tudo, absolutamente tudo, pareceu insuficiente e, sinceramente, eu nem sei se você vai ler esta mensagem, por isso, é melhor começar sem começo mesmo.
Eu tava aqui pensando, sentindo meu peito apertar no avanço da noite de domingo, que queria era poder falar, mas era falar te olhando nos olhos, nesses seus olhos castanhos. Eu queria era tá lado a lado e pronto, sentindo o vento do Marco Zero tocar os nossos rostos.
Mas, tô aqui, olhando as redes sociais, esperando quase como um cachorro, um aceno, um chamado, qualquer que seja o papeado, uma conversa sem futuro sobre o clima abafado ou o último evento mundano ou absurdo.
Na tela do celular, tudo branco. Vou scrollando vídeos curtos e acabo sonhando, como quase todas as noites, o mesmo sonho:
Eu tomo um café e leio um livro, às vezes estou corrigindo exercícios, você chega olha nos meus olhos de um jeito profundo, seu colar balança, seu sorriso me abraça e sua mão me rouba a caneta preta. “E nossas férias?”
Sua voz me desperta e estou só.
Como pode? Me diz, como pode as coisas escalonarem assim? Você aí e eu aqui? Acho que esta e tantas outras perguntas são daquele tipo inconveniente que o silêncio é a resposta. No final, eu acho que pouco importa.
Mas, então, nossas férias será que ainda rola? Não precisa responder agora.
Na verdade, essa mensagem é quase um pedido de desculpas. Na moral, eu ando carregando uma culpa que tem, na mesma proporção, um tanto de ridícula e profunda.
Você lembra da última vez que a gente se falou? Aquela noite lá que você me ligou e a gente se encontrou ao som de Milton e por pouco não fomos expulsos da Cafeteria Bom Jesus que estava para fechar? Era quinta-feira, eu estava meio que com uma febre chata, tu lembra?
Meu irmão, aquela conversa mexeu comigo e eu, de coração partido, saltei como quem salta em um abismo. A verdade é que, desde muito antes, você sempre mexeu comigo. Odeio que o mundo siga sem ritmo… E eu tenho a impressão que o desencontro sempre foi a trama que nos costurou, feito aquele dia lá no metrô.
Mas, velho, depois daquela quinta, eu fui a própria agonia, feito um Barro Macaxeira em horário de pico. Então lá fui eu voar como voou Ícaro, me jogar da Ponte de Ferro sem saber nadar, lá fui eu pular no precipício como quem tá dando pipoca aos patos do Parque Treze de Maio.
Cruzei a Cabugá de venda e aí não deu outra: tristeza.
Você me colocou os freios. Foi o sol em minhas asas e o chão da minha queda e, hoje, domingo, depois de um sábado de descobertas que nada tem a ver com aquela nossa conversa, acho, talvez, que você estivesse certa.
Mas, se a cabeça raciocina o coração apenas deseja, selvagemente deseja.
Eu que comecei escrevendo para te pedir desculpas, para tentar não perder a presença que ainda tenho, acho que não tenho como, realmente não tenho. Enquanto escrevo querendo não perder as mensagens na minha tela, os teus olhos castanhos e o sorriso sol em uma mesa de café no fim de tarde, não posso deixar de me precipitar novamente. Acho tudo isso pouco para o que pode ser a gente.
O mundo, amanhã, pode acabar. Tu sabe, né? A guerra dos estadunidenses… Por isso, eu preciso te lembrar: é urgente, urgente amar.
Assim, não é que eu busque por agora um para sempre, mas em um presente onde o futuro parece não ter um lugar, será que não rolava a gente tentar?


